segunda-feira, 15 de março de 2010

Onde fica a Terra do Nunca?

As crianças que são felizes. Têm a vida colorida de sonhos e descobertas, de brincadeiras, de som de passarinho, de pipa solta no ar. "O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta”, já disse João Cabral de Melo Neto. A infância tem música alegre, cheiro de bolo de chocolate fresquinho e conversa boa no portão. Mas, eis que crescemos, e muito dessa magia se perde no ar. Parece que a vida se torna menos divertida quando as responsabilidades aumentam. 

Mas, sempre que penso em infância, lembro da Terra do Nunca, de Peter Pan, o menino que não queria crescer. Um lugar encantado, presente no imaginário das crianças; um lugar em que fadas não são apenas fantasia, mas realidade naquele mundo. Mas, elas só existem se acreditamos nela. E parece que até as crianças de hoje em dia estão perdendo essa magia da Terra do Nunca. Crianças querendo crescer rápido demais ou adultos esquecendo da criança que existe em cada um. As fadas estão morrendo, porque ninguém acredita mais nelas. O mundo está perdendo seu encanto porque a vida se tornou pesada demais.

É verdade que crescemos e temos que encarar a vida de uma forma mais responsável. Mas, isso não significa que precisamos nos tornar pessoas amarguradas. Pois “há um menino, há um moleque morando sempre no meu coração. Toda vez que o adulto balança ele vem pra me dar a mão”. A vida pode ser colorida, cheia de encanto. Mas também pode ser escura, aquele preto-e-branco que dá a impressão de que tudo está sempre igual. É só uma questão de escolha.

Eu escolhi pintar minha vida com as cores da infância. Por que não comer aquele bolo de chocolate fresquinho num domingo à tarde? Por que a vida tem que ser chata só porque ganhamos uns anos a mais? Eu descobri que a Terra do Nunca está dentro de cada um de nós, e que posso visitá-la sempre que eu quiser. Basta acreditar. E você? Já foi à Terra do Nunca hoje?

domingo, 14 de março de 2010

Ensaio sobre o medo

Era tortuoso o caminho que ela seguia. Escolhas, decisões e a possibilidade do erro. Não tinha um só dia em que ela não se perguntava se era certo o caminho que seguia. Será esse o futuro que me espera?, perguntava-se ela. Será esse o significado de viver? Apenas dúvidas e sonhos e nenhuma solução à vista?

É nessas horas de fraqueza que ele vem. Ela não sabe descrevê-lo, mas ele assusta. Ele grita, em alto e bom som, ao pé de seu ouvido: você não vai conseguir! Desesperada, ela chora. Ela teme que ele esteja certo. Nesse momento, seus pensamentos são povoados da névoa da indecisão. E se ele estiver certo?, ela pensa por horas a fio.

Assim, a vida segue, cheia de pontos de interrogação. Aliás, a vida se transforma em um enorme ponto de interrogação, com ares daqueles quadros impressionistas. Apenas impressões é o que ela possui. Impressão de estar certo, de estar errado, impressão de que ele só quer assustá-la. Ela se sente qual criança quando ele aparece. O que ela mais queria nesse momento? Um colo que a protegesse.

Mas, eis que um dia, em uma de suas aparições, ele resolve apresentar-se a ela. Já era hora, pensou ela. Sabendo que bicho papão é esse, fica mais fácil espantá-lo.

- Prazer, eu sou o medo, começa ele.
- Por que você tanto me assusta?, rebate ela.
- Hoje, mais do que te assustar, vim te esclarecer. Menina, não percebes que sou do tamanho que me enxergas? Minha cara, só te assusto por tu assim permites.
- Mas eu não permito!, grita ela, em tom de quase desespero.
- Menina bonita, cada vez que alimentas esses pensamentos negativos, eu cresço em sua mente, qual bicho papão aparece à noite para as crianças que têm medo de escuro.

Ela já ia dar-lhe uma resposta, quando o medo fez sinal para que ela se calasse. E prosseguiu:

- Vês, aí dentro de teu coração, uma luz clara e confortadora? É ela que pode me combater. A esperança, minha menina, é a melhor conselheira. Só ela é capaz de me tirar de tua vida. Ouça o que ela tem a te dizer, e seguirás muito mais confiante a tua estrada.

Assim, o medo retirou-se do coração daquela menina, que agora era dominado pela melhor aliada: a esperança. E ele seguiu seu caminho, a procura de outro coração despreparado, esperando tão cedo não precisar ver os olhos daquela menina chorarem por sua causa.

sábado, 13 de março de 2010

Não tem preço

Faz frio em pleno verão. O sol da cidade não é o bastante para aquecer aquela realidade fria de se viver nas ruas. Se ainda fosse só ela. Mas, não. Ainda tem seus 4 filhos, um deles, ainda de colo.
 
É sábado. Dia convidativo para tomar um sorvete com a família. Mas, como fazer isso, se aquela mãe não tem o mínimo para dar àquelas crianças? E contar com a solidariedade dos outros... Ah, ela já está perdendo as esperanças. Frente à indiferença alheia, ela se sente apenas um ser comum, como se fosse marginal naquela sociedade, afinal, está à margem da vida que a cerca. Está em uma cidade grande, mas se sente mínima diante do abismo que a separa de uma vida normal.
 
A alguns metros dali, o sol entra pela janela de uma típica família de classe média. Não são ricos, mas têm o suficiente para viverem tranquilos. Faz calor naquela casa. Mas a quentura que se sente ali é apenas por causa do dia de verão. Há uma fria distância entre os membros dessa família. São quatro pessoas e quatro mundos quase isolados e independentes. Mas, é sábado, dia de tomar sorvete.
 
A filha mais velha, na casa dos seus 20 e poucos anos, resolve ir à padaria comprar picolés para todos. Afinal, está a apenas alguns metros do estabelecimento. Em poucos minutos poderia resolver isso, e voltar para o infinito particular do seu quarto. E é nesse momento que essas duas realidades – a da moradora de rua e a da jovem – se cruzam. Foram apenas alguns minutos, mas suficientes para deixar muitos aprendizados.
 
Como planejara, a jovem foi até à padaria e escolheu alguns picolés. Quando voltava para casa, passou por essa família de rua, que ela já conhecia, pois eles sempre estão por ali. A mãe pede que ela dê um picolé para ela dividir entre seus filhos. A menina olha rapidamente para aquela família, mas segue em frente, sem atender ao pedido da moradora de rua.
 
Mas, logo um peso tomou conta de seu coração. Mal entrou de volta em seu quarto, e a jovem não conseguia se concentrar em nada que tentasse fazer: a cena daquela família não lhe saía da cabeça. Logo, ela lembrou de um sonho que teve, em que lhe diziam que sua mudança de atitude poderia evitar que algo de ruim acontecesse. Mas, que diferença fazia dar um picolé para aquela família se isso não resolveria o problema deles? Mas, ela não demorou a concluir que um pequeno momento de felicidade para aquelas pessoas, não tem preço. Não é isso a caridade? Dar aos outros o mínimo que seja, mas de coração?
 
Decidida a, pelo menos uma vez na vida, fazer a diferença para alguém, a jovem voltou à padaria e comprou mais dois picolés. Não conseguindo esconder a paz que habitava seu coração – mas, ainda envergonhada por ter demorado a ter essa atitude – ela caminhou em direção à família e parou diante deles. Logo, uma das crianças disse a ela:
 
- Tia, me dá esse sorvete?
 
Ela, com um sorriso nos lábios, entregou o sorvete à mãe deles. Antes de ir, ela falou:
 
- Eu não conseguiria dormir em paz se não fizesse isso.
 
O sorriso que ela viu no rosto daquelas crianças salvou seu dia, que tinha tudo para ser igual a todos os outros. E o olhar de agradecimento daquela mãe é algo que ficará para sempre em sua memória.
 
Depois desse episódio, elas não mais se encontraram. Mas, o aprendizado ficou. Para os moradores de rua ficou a esperança de que alguém se importe com eles. Para aquela jovem, a paz de espírito lhe mostrou que a caridade não tem preço.

terça-feira, 9 de março de 2010

Pra não dizer que não falei de música

Não se fazem mais cantores de rádio como antigamente. Aliás, ainda se fazem cantores assim? Outros tempos, outras músicas. Nem melhores, nem piores, apenas vivemos um outro tempo, e os novos artistas são representantes deste.

Mas, voltando à Era do Rádio... Vendo a minissérie “Maysa – Quando fala o coração”, e a que passou recentemente, “Dalva e Herivelto – Uma canção de amor”, me despertou um pouquinho mais a atenção para aquelas canções que eu já conhecia, mas nem de longe tinha noção das histórias por trás delas. Se já gostava das músicas, passei a gostar ainda mais.

No final do último capítulo de “Dalva e Herivelto”, a Rainha do Rádio, Dalva de Oliveira disse a seu filho que todos os artistas morrem do coração, porque amam demais. Analisando os grandes sucessos dessa época, a temática do amor realmente era constante – seja ele feliz ou não. De brigas e separações, de grandes histórias de amor, surgiram músicas como “Que será”, cantada por Dalva de Oliveira, “Meu mundo caiu”, de Maysa” e “Por causa de você”, de Tom Jobim e Dolores Duran, entre tantas outras.

Era muito sentimento que movia a criação dessas canções. E de todo esse amor, era o público que ganhava, podendo apreciar grandes sucessos. Essa foi uma época em que a verdade era o principal componente das letras. Cantava-se o que se estava vivendo. Talvez seja esse o segredo do sucesso.

Mas nem só de vozes femininas viveu a Era do Rádio. Nomes como o próprio Herivelto Martins estiveram bem presentes, além de outros como Ataulfo Alves e Francisco Alves.

Foram muitos sucessos embalando a época em que o rádio ainda era o principal meio de comunicação. Dessa época, também, acompanhamos o nascer da televisão e o crescimento de sua importância, invadindo os lares dos espectadores com mais informação e entretenimento, agora contando com o recurso da imagem.

Muitos artistas do rádio fizeram história na TV. Outros ficaram perdidos entre os LPs e as lembranças de seus ouvintes. E ver que hoje, mesmo com a Internet ganhando força na divulgação da carreira dos novos talentos, esses grandes nomes ainda sejam lembrados, é encantador. Afinal, eles ajudaram a contar uma linda – e intensa – parte da história da música brasileira. Eu sou fã!

segunda-feira, 8 de março de 2010

As mulheres e a guerra

“As mulheres sempre perdem a guerra. Não a querem, mas a perdem” [Marina Colasanti]

Agnès Humbert e Asne Sierstad são duas mulheres que não se conhecem, nem sequer viveram na mesma época. Mas há uma triste história que as une: a guerra. Uma enfrentou a Segunda Guerra Mundial e viveu nos campos de trabalho forçado, lutando, a cada dia, para salvar a própria vida. A outra, retratou os conflitos que devastaram a Iuguslávia na década de 1990. E ambas sobreviveram para contar suas histórias.
Asne Seiertad é uma jornalista norueguesa e caiu na guerra de pára-quedas. Seu livro é uma grande reportagem, fruto de suas viagens à Sérvia entre 1999 e 2004. De costas para o mundo” é escrito através de personagens, que a autora usa para examinar a vida cotidiana em um território historicamente marcado pela diversidade religiosa e cultural, habitado por católicos ortodoxos e muçulmanos.

Em relatos colhidos antes, durante e depois da queda de Milosevic, Asne mostra a decepção daqueles que achavam que suas vidas mudariam para melhor com a prisão e julgamento em Haia do ditador. De refugiados do Kosovo a integrantes da classe média, todos esperavam que o país se reerguesse completamente; a realidade, no entanto, revelou-se mais cruel.

O que torna este livro especial, entre tantos relatos de guerra, é que a autora conta a história sem juízo de valores ou preconceitos. Conta a história exatamente como ela é, deixando que o leitor tire suas conclusões.

Já Agnes Humbert sentiu a guerra em seu próprio corpo. E é no verão francês de 1940 que essa história começa. A historiadora de arte, inconformada com a dominação nazista fundou , com apoio de seus colegas do Museu do Homem, um dos primeiros grupos da Resistência francesa. Mas, a traição de um espião levou Agnes e seus companheiros para os campos de concentração. Muitos deles foram condenados à morte e fuzilados, sem dó nem piedade.

Em “Resistência”, a autora conta com uma incrível riqueza de detalhes todos os efeitos de uma guerra devastadora, mesmo para quem nada tem a ver com ela. Com humor, inteligência e ironia, Agnes constrói uma narrativa única, um ponto de vista original sobre esse período obscuro e dramático do século XX. Agnes sobreviveu e dividiu com os leitores esse seu diário de páginas tão sofridas, de uma luta de resistência não apenas ao próprio regime, mas também à sua própria vida.

Essas duas mulheres entraram em minha vida através de seus livros e, cada uma a seu jeito, mexeram comigo Uma pelo relato jornalístico; a outra, pelo relato tão emocionado e real do que acontecia num campo de concentração.

Asne e Agnes são apenas dois exemplos de que a guerra é devastadora mesmo para quem não a vive diretamente. Termino esse texto com um trecho do prefácio de “Resistência”, escrito por Marina Colasanti. E fica a homenagem a todas as mulheres que vencem suas guerras diárias.

“Quando se é obrigada a passar seis semanas sem trocar a roupa íntima, proibida de lavá-la e praticamente sem lavar-se, quando os piolhos infestam a cabeça e a fome devora o estômago, manter a dignidade é uma conquista diária. Quando o trabalho é forçado e massacrante, quando não há agasalho contra o frio nem colchão para deitar, quando não há espaço, não há proteção, não há trégua, manter vivos a fraternidade e altruísmo é uma conquista”.

domingo, 7 de março de 2010

Prefácio

Futuros leitores,

Esse blog tem o intuito de não ter sentido, regras ou temas definidos. Não esperem encontrar muita linearidade, pois o que se apresentará a seguir poderá ser qualquer coisa - que nem eu ainda descobri. Afinal, uma jornalista também tem o desejo de escrever sobre o tudo - e sobre o nada.

O blog será um misto de memórias, crônicas e declarações de amor - não necessariamente nessa odem. Os textos vêm com um estilo meio bossa nova e rock'n'roll, mas pretendendo ser  pré-pós-tudo-bossa-band. Entenderam? Não? Nem eu... Bem vindos!

E, para uma apresentação mais "formal" do meu novo blog, convidei Carol Freitas para escrever este que será o"prefácio" do meu "livro virtual". Aproveito para convidar-lhes a conhecer os blogs de minha xará: Tigela Colorida e Mania [crônica].

Mesmo quem escreve por ofício, tem a necessidade de alguma abstração...

Com a sensibilidade e talento, que lhe eram peculiares, Fernando Pessoa nos brindou com a seguinte passagem: “Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto.”
 

Relendo isso, penso que, talvez, muita gente não perceba, mas nosso dia-a-dia é tão recheado de material e inspiração, que é quase impossível, para quem gosta de escrever, não enxergar histórias e crônicas aqui e ali. São situações que vão das mais comuns e corriqueiras, até as mais impressionantes e impensáveis. Prato cheio para quem tem o prazer de escrever, misturado com amor e vocação, literatura e informação. É tudo tão natural, que nasce quase como um sopro: e da necessidade, nascem as palavras. Palavras que podem ser tristes, que podem ter paixão, que podem ter indignação, que podem apenas entreter, mas que precisam existir. Precisam porque, como disse Pessoa, foram sentidas, porque foram idealizadas e porque a arte agradece qualquer forma de manifestação.

E esta manifestação ganhou mais um espaço: por aqui, entre uma palavra e outra, estará o olhar interessado de alguém que acredita e sente este nosso cotidiano literário.