segunda-feira, 8 de março de 2010

As mulheres e a guerra

“As mulheres sempre perdem a guerra. Não a querem, mas a perdem” [Marina Colasanti]

Agnès Humbert e Asne Sierstad são duas mulheres que não se conhecem, nem sequer viveram na mesma época. Mas há uma triste história que as une: a guerra. Uma enfrentou a Segunda Guerra Mundial e viveu nos campos de trabalho forçado, lutando, a cada dia, para salvar a própria vida. A outra, retratou os conflitos que devastaram a Iuguslávia na década de 1990. E ambas sobreviveram para contar suas histórias.
Asne Seiertad é uma jornalista norueguesa e caiu na guerra de pára-quedas. Seu livro é uma grande reportagem, fruto de suas viagens à Sérvia entre 1999 e 2004. De costas para o mundo” é escrito através de personagens, que a autora usa para examinar a vida cotidiana em um território historicamente marcado pela diversidade religiosa e cultural, habitado por católicos ortodoxos e muçulmanos.

Em relatos colhidos antes, durante e depois da queda de Milosevic, Asne mostra a decepção daqueles que achavam que suas vidas mudariam para melhor com a prisão e julgamento em Haia do ditador. De refugiados do Kosovo a integrantes da classe média, todos esperavam que o país se reerguesse completamente; a realidade, no entanto, revelou-se mais cruel.

O que torna este livro especial, entre tantos relatos de guerra, é que a autora conta a história sem juízo de valores ou preconceitos. Conta a história exatamente como ela é, deixando que o leitor tire suas conclusões.

Já Agnes Humbert sentiu a guerra em seu próprio corpo. E é no verão francês de 1940 que essa história começa. A historiadora de arte, inconformada com a dominação nazista fundou , com apoio de seus colegas do Museu do Homem, um dos primeiros grupos da Resistência francesa. Mas, a traição de um espião levou Agnes e seus companheiros para os campos de concentração. Muitos deles foram condenados à morte e fuzilados, sem dó nem piedade.

Em “Resistência”, a autora conta com uma incrível riqueza de detalhes todos os efeitos de uma guerra devastadora, mesmo para quem nada tem a ver com ela. Com humor, inteligência e ironia, Agnes constrói uma narrativa única, um ponto de vista original sobre esse período obscuro e dramático do século XX. Agnes sobreviveu e dividiu com os leitores esse seu diário de páginas tão sofridas, de uma luta de resistência não apenas ao próprio regime, mas também à sua própria vida.

Essas duas mulheres entraram em minha vida através de seus livros e, cada uma a seu jeito, mexeram comigo Uma pelo relato jornalístico; a outra, pelo relato tão emocionado e real do que acontecia num campo de concentração.

Asne e Agnes são apenas dois exemplos de que a guerra é devastadora mesmo para quem não a vive diretamente. Termino esse texto com um trecho do prefácio de “Resistência”, escrito por Marina Colasanti. E fica a homenagem a todas as mulheres que vencem suas guerras diárias.

“Quando se é obrigada a passar seis semanas sem trocar a roupa íntima, proibida de lavá-la e praticamente sem lavar-se, quando os piolhos infestam a cabeça e a fome devora o estômago, manter a dignidade é uma conquista diária. Quando o trabalho é forçado e massacrante, quando não há agasalho contra o frio nem colchão para deitar, quando não há espaço, não há proteção, não há trégua, manter vivos a fraternidade e altruísmo é uma conquista”.

4 comentários:

Silvana Nunes .'. disse...

Boa dica. Não conhecia.
FELIZ DIA DAS MULHERES.
Beijo grande.

Claudia Cunha disse...

Adorei as dicas e o espaço novo, Carol.
Que nunca falte inspiração e energia pra encher a página branca...

Beijos!

Danny Reis disse...

Li Resistência. Na verdade, comecei a ler, mas acabei parando pela metade mais ou menos. É tanta crueldade, tanta dor que não consegui seguir adiante.
Enfim, a gente precisa de um certo "estômago" pra acompanhar tudo.
Mesmo assim, as dicas são ótimas.
Beijos!

Carol Freitas disse...

Fiquei curiosa pelos livros. A força das mulheres sempre rende boas histórias. Vou colocar na lista!