domingo, 14 de março de 2010

Ensaio sobre o medo

Era tortuoso o caminho que ela seguia. Escolhas, decisões e a possibilidade do erro. Não tinha um só dia em que ela não se perguntava se era certo o caminho que seguia. Será esse o futuro que me espera?, perguntava-se ela. Será esse o significado de viver? Apenas dúvidas e sonhos e nenhuma solução à vista?

É nessas horas de fraqueza que ele vem. Ela não sabe descrevê-lo, mas ele assusta. Ele grita, em alto e bom som, ao pé de seu ouvido: você não vai conseguir! Desesperada, ela chora. Ela teme que ele esteja certo. Nesse momento, seus pensamentos são povoados da névoa da indecisão. E se ele estiver certo?, ela pensa por horas a fio.

Assim, a vida segue, cheia de pontos de interrogação. Aliás, a vida se transforma em um enorme ponto de interrogação, com ares daqueles quadros impressionistas. Apenas impressões é o que ela possui. Impressão de estar certo, de estar errado, impressão de que ele só quer assustá-la. Ela se sente qual criança quando ele aparece. O que ela mais queria nesse momento? Um colo que a protegesse.

Mas, eis que um dia, em uma de suas aparições, ele resolve apresentar-se a ela. Já era hora, pensou ela. Sabendo que bicho papão é esse, fica mais fácil espantá-lo.

- Prazer, eu sou o medo, começa ele.
- Por que você tanto me assusta?, rebate ela.
- Hoje, mais do que te assustar, vim te esclarecer. Menina, não percebes que sou do tamanho que me enxergas? Minha cara, só te assusto por tu assim permites.
- Mas eu não permito!, grita ela, em tom de quase desespero.
- Menina bonita, cada vez que alimentas esses pensamentos negativos, eu cresço em sua mente, qual bicho papão aparece à noite para as crianças que têm medo de escuro.

Ela já ia dar-lhe uma resposta, quando o medo fez sinal para que ela se calasse. E prosseguiu:

- Vês, aí dentro de teu coração, uma luz clara e confortadora? É ela que pode me combater. A esperança, minha menina, é a melhor conselheira. Só ela é capaz de me tirar de tua vida. Ouça o que ela tem a te dizer, e seguirás muito mais confiante a tua estrada.

Assim, o medo retirou-se do coração daquela menina, que agora era dominado pela melhor aliada: a esperança. E ele seguiu seu caminho, a procura de outro coração despreparado, esperando tão cedo não precisar ver os olhos daquela menina chorarem por sua causa.

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