sábado, 13 de março de 2010

Não tem preço

Faz frio em pleno verão. O sol da cidade não é o bastante para aquecer aquela realidade fria de se viver nas ruas. Se ainda fosse só ela. Mas, não. Ainda tem seus 4 filhos, um deles, ainda de colo.
 
É sábado. Dia convidativo para tomar um sorvete com a família. Mas, como fazer isso, se aquela mãe não tem o mínimo para dar àquelas crianças? E contar com a solidariedade dos outros... Ah, ela já está perdendo as esperanças. Frente à indiferença alheia, ela se sente apenas um ser comum, como se fosse marginal naquela sociedade, afinal, está à margem da vida que a cerca. Está em uma cidade grande, mas se sente mínima diante do abismo que a separa de uma vida normal.
 
A alguns metros dali, o sol entra pela janela de uma típica família de classe média. Não são ricos, mas têm o suficiente para viverem tranquilos. Faz calor naquela casa. Mas a quentura que se sente ali é apenas por causa do dia de verão. Há uma fria distância entre os membros dessa família. São quatro pessoas e quatro mundos quase isolados e independentes. Mas, é sábado, dia de tomar sorvete.
 
A filha mais velha, na casa dos seus 20 e poucos anos, resolve ir à padaria comprar picolés para todos. Afinal, está a apenas alguns metros do estabelecimento. Em poucos minutos poderia resolver isso, e voltar para o infinito particular do seu quarto. E é nesse momento que essas duas realidades – a da moradora de rua e a da jovem – se cruzam. Foram apenas alguns minutos, mas suficientes para deixar muitos aprendizados.
 
Como planejara, a jovem foi até à padaria e escolheu alguns picolés. Quando voltava para casa, passou por essa família de rua, que ela já conhecia, pois eles sempre estão por ali. A mãe pede que ela dê um picolé para ela dividir entre seus filhos. A menina olha rapidamente para aquela família, mas segue em frente, sem atender ao pedido da moradora de rua.
 
Mas, logo um peso tomou conta de seu coração. Mal entrou de volta em seu quarto, e a jovem não conseguia se concentrar em nada que tentasse fazer: a cena daquela família não lhe saía da cabeça. Logo, ela lembrou de um sonho que teve, em que lhe diziam que sua mudança de atitude poderia evitar que algo de ruim acontecesse. Mas, que diferença fazia dar um picolé para aquela família se isso não resolveria o problema deles? Mas, ela não demorou a concluir que um pequeno momento de felicidade para aquelas pessoas, não tem preço. Não é isso a caridade? Dar aos outros o mínimo que seja, mas de coração?
 
Decidida a, pelo menos uma vez na vida, fazer a diferença para alguém, a jovem voltou à padaria e comprou mais dois picolés. Não conseguindo esconder a paz que habitava seu coração – mas, ainda envergonhada por ter demorado a ter essa atitude – ela caminhou em direção à família e parou diante deles. Logo, uma das crianças disse a ela:
 
- Tia, me dá esse sorvete?
 
Ela, com um sorriso nos lábios, entregou o sorvete à mãe deles. Antes de ir, ela falou:
 
- Eu não conseguiria dormir em paz se não fizesse isso.
 
O sorriso que ela viu no rosto daquelas crianças salvou seu dia, que tinha tudo para ser igual a todos os outros. E o olhar de agradecimento daquela mãe é algo que ficará para sempre em sua memória.
 
Depois desse episódio, elas não mais se encontraram. Mas, o aprendizado ficou. Para os moradores de rua ficou a esperança de que alguém se importe com eles. Para aquela jovem, a paz de espírito lhe mostrou que a caridade não tem preço.

Um comentário:

João Lima disse...

oi carol! pois é, isso sempre acontece comigo, tb me sinto estranho qd passo por essas pessoas, sempre carrego o sofrimento delas comigo. é difícil mesmo!

muito bacana o seu blog carol. vida longa!! há pouco tempo criei um blog literário. escrevo algumas coisas lá de vez em quando... é o www.comtexturas.blogspot.com. será bem-vinda! bjão!!